segunda-feira, setembro 26, 2005

«Democratas» discutem guerra preventiva

por http://feioporcoemau.blogspot.com/
Sexta-feira, Setembro 23, 2005
posted by Feio Porco e Mau at 3:01 PM




O jornal Público de hoje apresenta um artigo de opinião em jeito de notícia, como é habitual, dando conta de uma possível ilegalização do PNR. Quem assina é Nuno Sá Lourenço, o repórter que acompanhou os 400 militantes e apoiantes do Bloco de Esquerda aquando da violência contra a Guardia Civil na fronteira com Espanha. Esperemos que, em nome da Democracia, esse acontecimento não ilegalize nem o Bloco de Esquerda nem o Jornal Público.



No artigo foram «entrevistados» dois paladinos da liberdade, Anacleto e Jerónimo. O Anacleto dispara logo com uma engraçada: «devem existir consequências quando há actuações que violentem os direitos dos outros». Não explicou que consequências, nem explicou se nos quer obrigar todos a ser anarquistas, portanto não limitando, de forma nenhuma, «os direitos dos outros». Ou estaria a referir-se às palavras de ordem do BE contra os EUA e Israel? Seria Génova, Barcelona, Sevilha... Setúbal? Workshops? Tendas? Bombas? Bem, se calhar era um cumprimento à Helena Pinto, não sei, mas que falou nisso falou.

Já o Jerónimo das duas uma, ou tava chateado por o artigo ser do Anacleto ou nesse dia ainda não tinha ido à garrafa. O que é certo é que até foi bastante moderado - deve andar a tentar dar um arzinho de tolerante por causa disto das presidenciais porque senão depois não pode ajudar o bochechas - e apenas disse que «devíamos estar atentos, no sentido que surgem do quase nada e que a impunidade os torna perigosos». Também não explicou nada, mas aproveito para agradecer o elogio de ter reconhecido «o trabalho que surgiu do nada». Zé Gato, até o Jerónimo te reconhece como inútil! Ou útil... ao sistema.




De qualquer forma, vamos ao assunto central do tal artigo de opinião. Quer-me parecer que se trata mesmo de um artigo de encomenda sem grande "background". É apenas mais um para assustar o pacato cidadão que (ainda) paga os seus impostos. De qualquer forma um cenário como aquele que o Público montou seria bom, neste momento, por vários motivos:

1. O trabalho que iriam estragar ainda estaria no início, portanto não se perderia assim tanto, e facilmente se recuperaria o que fosse para o lixo. Acresce que o chavascal que iria ser levantado seria óptima exposição e propaganda, gratuita, que nos colocaria no papel de vítimas sem nada termos pedido. Finalmente, seria uma tarefa sem qualquer resultado práctico que não os dos pontos que refiro adiante, como aliás já se viu no país com maior repressão «democrática» da Europa: Alemanha e a tentativa frustrada de ilegalização do «partido neo-nazi» NPD. A propósito, a oligarquia terá consciência que viver na «Comunidade Europeia» não representa apenas euros para os seus bolsos? Há outras (des)vantagens em pertencer ao círculo de países civilizados...

2. As purgas fazem bem à saúde, ainda para mais quando são naturais, e se forem feitas por terceiros poupam-nos muito tempo e trabalho. Há purgas de vários níveis: há os que se vão retrair de imediato, apesar das grandes teorias e desculpas sobre tudo e mais alguma coisa que vão apresentar, ainda hoje, nos seus blogs; há os que vão desaparecer quando surgirem as primeiras contrariedades, sejam notificações, ameaças, rusgas, etc.; há os que vão fraquejar quando começarem a sonhar enfrentar o maçon-gay da batina preta. O que têm em comum, todos eles, é a sua inutilidade prática ao movimento, apesar da meia-dúzia de palavras bonitas e aparentes «boas-intenções» (teóricas!) que conseguem articular. Ficarão os fortes ideologicamente e é com esses que qualquer movimento pode contar (os americanos que o digam).

3. Todos os que nutrem uma simpatia mínima pelo PNR, ou antipatia pelo sistema, iriam potenciar a sua revolta e de futuro seriam prováveis apoiantes. Todos os que já eram apoiantes iriam declarar guerra total ao sistema, e não mais iram cruzar-se com uma «caravana» dos seus «novos» inimigos de ânimo leve. Chama-se agitação, é boa, dá saúde, e foi assim que as Sociedades Anónimas (SA) se tornaram «competitivas», não foi com burocracias ou papelada. E nessa altura ver-se-á quem são os «atrevidos», os «radicais», os «malucos».



Mas nem tudo são rosas num cenário desses e, infelizmente, o grande vencedor de uma batalha desse género seriam os abutres que (in)pacientemente aguardam pelo cadáver, mas os que aguardam os ossos e não os que anseiam pelo enterro. E isso seria talvez o maior retrocesso que o movimento sofreria nos últimos anos: o regresso das viroses, dos minho-timorenses, dos «verdadeiros patriotas», e dos fence-sitters, que iriam aparecer como «grandes salvadores da Pátria», depois de «tanto avisarem do perigo», isto depois de estar feito o trabalho sujo que eles nunca fizeram em 15 anos de vampiragem.

De qualquer forma, e sobre a questão da «liberdade de expressão», ninguém ataca uma ideia da qual não gosta com ameaças de censura e/ou ilegalização, ainda para mais de um partido político. Tanta gente fala no Bloco de Esquerda como um contra-poder mas, apesar dessa associação de organizações extremistas contar nas suas fileiras com terroristas, nunca ninguém colocou a hipótese de o silenciar abruptamente. Os comunistas auto-proclamados revolucionários anti-democratas nunca estiveram sob ameaça de ilegalização, mesmo quando as suas principais figuras eram assassinos que mataram bebés e empresários com tiro na nuca. Se colocam essa hipótese em relação a um partido que nada tem a ver com as bombas reais da ETA, como o BE, nem com as verdadeiras FP25, como o PCP, e que publicamente é ameaçado com investigações e não com amnistias, é porque sentem nele uma verdadeira ameaça, uma ameaça à oligarquia instalada, aos seus tachos, uma futura alternativa ao poder, e por isso, se tudo isto não passasse de um conto de fadas madrastas, o significado seria só um: o tiro tinha sido certeiro e estaríamos no bom caminho!