À caterva de comissários europeus
CARTAS ABERTAS
do Comendador Marques de Correia
Crónica da revista Única do Expresso
5/10/2005
«Finalmente! Agora os europeus podem dormir descansados. Finalmente, a Turquia pode começar as negociações para a adesão à Europa. Um só perigo espreita no horizonte: estas negociações serem tão longas que, no fim, acabe por ser a Europa a aderir à Turquia.
Isto é coisa (as negociações) para levar uns 15 anos, não menos, disse-me um amigo meu que se movimenta bem nos corredores de Bruxelas (demorou 13 anos a perceber de quem eram aqueles gabinetes todos, mas entretanto já não se lembra de qual é o seu). Por isso, é uma sorte se a Europa ainda existir quando a Turquia entrar.
Esta posição foi, no entanto, criticada como excessivamente optimista por uma fonte próxima de Durão Barroso (mas não tão próxima que se tenha casado com ele, ou coisa assim). Esta última é, aliás, uma fonte que por se movimentar mal nos corredores de Bruxelas passa a vida a esbarrar com a comitiva do presidente da Comissão. Esta fonte, a tal que considera optimista a visão da outra, afirma que daqui a 20 anos não só é uma sorte que a Europa exista, como seria ainda mais sorte existirem europeus. «É possível conceber uma Europa sem europeus?», pergunta ele, embora ninguém lhe responda.
Já Freitas do Amaral, o único europeu que dá a cara e diz coisas «em on», acha que a adesão da Turquia desagrada ao Bin Laden. Isto significa que Freitas sabe o que agrada e desagrada ao Bin Laden. É natural que Freitas goste de desagradar a Bin Laden, porque durante uns tempos andou a agradar-lhe, ao manifestar-se contra os Estados Unidos e a guerra do Iraque, e toda a gente sabe como ele é rigorosamente ao centro.
A Turquia deixou de ser um tema tabu para passar a ser um tema central da política europeia. E isso é bom. Porque, não tendo a Europa ideias concretas sobre si mesma, pode começar a ter ideias gerais sobre os outros. Agora, sobre a Turquia, mais tarde sobre o Magrebe e, depois quem sabe -- o Céu é o limite -- pode integrar Cabo Verde, que era um sonho conjunto dos cabo-verdianos, do prof. Adriano Moreira e do dr. Mário Soares. A partir dessa data histórica, podemos contar com a adesão da China, que é o maior fabricante de toalhas turcas, da maior parte do continente asiático e do conjunto dos países ACP, nomeadamente os das Caraíbas. Quando, por fim, a Europa se estender por todo o Mundo, ou quase, e o Conselho Europeu, presidido por um libanês, tiver 123 membros, todos com direito a veto, talvez alguém ache a coisa um bocado confusa. É nesse momento que, ao contrário das previsões de Freitas, os sucessivos alargamentos podem agradar a Bin Laden. Ou quem sabe se, nessa altura -- cidadão europeu percorrendo livremente o seu espaço -- nem ao próprio Bin Laden isso agrade.»
do Comendador Marques de Correia
Crónica da revista Única do Expresso
5/10/2005
«Finalmente! Agora os europeus podem dormir descansados. Finalmente, a Turquia pode começar as negociações para a adesão à Europa. Um só perigo espreita no horizonte: estas negociações serem tão longas que, no fim, acabe por ser a Europa a aderir à Turquia.
Isto é coisa (as negociações) para levar uns 15 anos, não menos, disse-me um amigo meu que se movimenta bem nos corredores de Bruxelas (demorou 13 anos a perceber de quem eram aqueles gabinetes todos, mas entretanto já não se lembra de qual é o seu). Por isso, é uma sorte se a Europa ainda existir quando a Turquia entrar.
Esta posição foi, no entanto, criticada como excessivamente optimista por uma fonte próxima de Durão Barroso (mas não tão próxima que se tenha casado com ele, ou coisa assim). Esta última é, aliás, uma fonte que por se movimentar mal nos corredores de Bruxelas passa a vida a esbarrar com a comitiva do presidente da Comissão. Esta fonte, a tal que considera optimista a visão da outra, afirma que daqui a 20 anos não só é uma sorte que a Europa exista, como seria ainda mais sorte existirem europeus. «É possível conceber uma Europa sem europeus?», pergunta ele, embora ninguém lhe responda.
Já Freitas do Amaral, o único europeu que dá a cara e diz coisas «em on», acha que a adesão da Turquia desagrada ao Bin Laden. Isto significa que Freitas sabe o que agrada e desagrada ao Bin Laden. É natural que Freitas goste de desagradar a Bin Laden, porque durante uns tempos andou a agradar-lhe, ao manifestar-se contra os Estados Unidos e a guerra do Iraque, e toda a gente sabe como ele é rigorosamente ao centro.
A Turquia deixou de ser um tema tabu para passar a ser um tema central da política europeia. E isso é bom. Porque, não tendo a Europa ideias concretas sobre si mesma, pode começar a ter ideias gerais sobre os outros. Agora, sobre a Turquia, mais tarde sobre o Magrebe e, depois quem sabe -- o Céu é o limite -- pode integrar Cabo Verde, que era um sonho conjunto dos cabo-verdianos, do prof. Adriano Moreira e do dr. Mário Soares. A partir dessa data histórica, podemos contar com a adesão da China, que é o maior fabricante de toalhas turcas, da maior parte do continente asiático e do conjunto dos países ACP, nomeadamente os das Caraíbas. Quando, por fim, a Europa se estender por todo o Mundo, ou quase, e o Conselho Europeu, presidido por um libanês, tiver 123 membros, todos com direito a veto, talvez alguém ache a coisa um bocado confusa. É nesse momento que, ao contrário das previsões de Freitas, os sucessivos alargamentos podem agradar a Bin Laden. Ou quem sabe se, nessa altura -- cidadão europeu percorrendo livremente o seu espaço -- nem ao próprio Bin Laden isso agrade.»

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