Tenho 84 anos e agora, perto do final da minha vida, tomo consciência de que lutei, trabalhei, estudei... tudo com grande esforço e isso não me é reconhecido e não tem qualquer valor.
Hoje é tudo tão diferente, oiço em todos os cantos que é a modernidade, é a nova Era, é o caminho para a resolução de todos os males do mundo.
Eu sinceramente não vejo como. Mas hoje a minha opinião pouco ou nada conta.
Nós os velhos somos postos de parte, somos um entrave à "evolução".
Custa-me acreditar que em apenas 60 anos da nossa longa história tenhamos mudado tanto. Eu pessoalmente lembro-me do meu avô como um ser exemplar, um ser a quem devia respeito, um ser que me protegia e era cúmplice nas minhas brincadeiras.
Era antes de mais nada pai do meu pai, sangue do meu sangue, era parte da minha família.
A família sempre foi um conceito bem implantado na nossa sociedade, a família era um bem essencial à nossa sobrevivência, a família tinha um valor muito elevado, mas assim tínhamos a certeza de que tínhamos sempre alguém do nosso lado.
Ao meu pai e à minha mãe, devo tudo aquilo que sou hoje. Numa época em que poucas crianças se podiam dar ao luxo de ir à escola, eu fui. Os meus pais trabalharam arduamente para me dar a mim e aos meus irmãos aquilo que eles consideravam vir a ser um futuro melhor.
Meus pobres pais, mal sabiam eles o que estaria reservado ao seu querido Portugal.
Fui ensinado desde cedo que existiam 3 coisas que devia respeitar na minha vida: Deus, Pátria, Família.
Os meus pais diziam-me que se respeitasse estas 3 coisas seria feliz, faria os outros felizes e isso faria de mim de mim um homem digno e honrado.
Mas sempre me avisaram que não bastava dizer que se respeitava, era preciso respeitar verdadeiramente, era preciso mostrar o nosso respeito e obediência. Isso não faria de mim nenhum escravo nem humilhado.
Desde cedo senti o peso dessas palavras.
De 8 irmãos que éramos, resto eu e uma irmã. Passei por experiências na minha vida, que embora me tenham tornado mais forte, não o desejo a ninguém.
Como eu disse éramos no total 8 irmãos. 3 raparigas e 5 rapazes, de todos os rapazes eu era o mais novo.
Talvez por isso nunca tive bem a noção (na altura) do porquê de as coisas acontecerem.
Nasci no ano de 1921, uma época turbulenta, em que a paz era tão frágil como um copo de vidro entre duas paredes que se vão colar.
A primeira Guerra Mundial havia acabado e eu nascera durante esse tempo de paz traiçoeira.
Mesmo em Portugal sentiu-se esse clima.
Consegui mesmo assim ir para a escola numa altura em que Portugal também vivia à relativamente pouco tempo numa república.
Quando completei 18 anos o mundo resolveu "brindar-me" com o inicio da segunda guerra mundial.
Os meus 2 irmãos mais velhos partiram para a guerra (não, não eram obrigados a ir, mas fizeram-no). Não percebi o porquê de irem, mas diziam-me que era algo que tinham de fazer.
Grandes admiradores de Hitler desde a sua subida ao poder em 1933, acreditavam que com a sua ideologia a Europa iria reafirmar-se.
Tinha a esperança de que pelo menos 1 iria voltar a ver. Enganei-me. Em 1942, recebi a notícia de que ambos haviam morrido "com dignidade" em combate.
Em 1945 acabava a segunda guerra mundial com a vitória dos aliados.
Fiquei nessa altura confuso. Havia perdido 2 irmãos numa guerra que eu pensava não ser deles e, pior, aquilo pelo qual eles haviam lutado perdera também.
A guerra mundial havia acabado e os meus pais sentiam agora a dor de terem perdido 2 filhos, no entanto diziam ter orgulho de terem 2 filhos tão corajosos ao ponto de darem as suas vidas por algo que acreditavam.
Terminei os meus estudos com 26 anos, disposto a utilizar os meus conhecimentos da melhor maneira que sabia.
Num tempo que hoje se diz ter sido retrógrado e conservador, vivi numa família que sem rebaixar os principais valores, não fez distinção entre homens e mulheres. Se eu acabei o meu curso, também as minhas 3 irmãs os tiraram. E claro os meus irmãos.
Foi complicado, mas os 6 irmãos que continuávamos vivos, conseguimos.
Aos meus 30 anos perdi a minha mãe, foi mais um duro golpe, mas tive de "aguentar".
O meu pai entrara numa grave depressão, e a ideia de poder vir a perder mais 3 filhos com a guerra que se adivinhava deixou-o de rastos.
Estávamos durante o governo ditatorial de Salazar. E a vida era complicada. Quando a guerra estalou nas colónias, todos os portugueses que lá estavam regressaram mas pior que isso foi as "gentes de lá" que vieram atrás.
Tal como o meu pai havia previsto, os seus 3 filhos homens foram chamados a combater. Nenhum de nós os 3 fugiu.
Não condeno quem não quis ir à guerra. Muitos chamam cobardes aos que fugiram. Eu simplesmente acho que se eles pensaram que aquela guerra não era deles, acho bem que não tenham lá ido. Vocês lutariam por algo que não acreditassem?
Lembrei-me nessa altura dos meus 2 queridos irmãos. Teríamos nós os 3 o mesmo destino? Não.
Dos 3 irmãos que fomos, voltámos 2. O meu irmão que voltou comigo viria a falecer mais a minha irmã mais velha nas mãos de 3 imigrantes (que eu vim a descobrir mais tarde serem angolanos) durante um assalto.
Conseguem imaginar o que sentia o meu pai?
Ficara eu, 2 irmãs e o meu pai. Os meus dois irmãos deixaram filhos, que com alegria ajudei a criar. Também eram afinal sangue do meu sangue.
Depois da guerra do ultramar veio o 25 de Abril. Prometeram tanta coisa, disseram que a partir dali tudo iria melhorar. Seríamos livres, haveria igualdade entre os homens e mulheres, e os direitos humanos e liberdade seriam cabeça de cartaz de uma revolução.
Eu próprio achei que daria alguma coisa. Mas hoje com 84 anos recordo com mágoa as sábias palavras do meu avô: " Não há nenhuma revolução que se faça sem sangue".
Estas palavras fazem de facto pensar.
Após o 25 de Abril vi a minha vida andar um pouco torta. Em vez das guerras dos campos de batalha vi-me a enfrentar outro tipo de guerras.
Vi o meu pai falecer dignamente de velhice aos 96 anos, a família nunca o abandonou.
Vi as minhas cunhadas que haviam perdido os meus irmãos nas guerras, ficarem sem apoios, os meus sobrinhos conseguiram ir vivendo porque felizmente eu os pude ir ajudando, e mais uma vez agradeço aos meus pais a educação que me deram.
Vi serem-lhes negados apoios porque o estado dizia não haver dinheiro.
Assisti revoltado à vinda de imigrantes para faculdades, com o apoio do nosso estado, com casas onde ficar, com carros para se deslocarem, e vi os meus filhos e sobrinhos terem de apanhar transportes, e em dias de chuva chegarem molhados a casa (não que lhes faça mal andar de transportes).
Vi a minha irmã morrer num lar porque a pouca reforma que ficou a ganhar após longos anos de trabalho mal dava para pagar a comida e medicamentos. Assisti com mágoa à luta dos meus filhos para conseguirem entrar na Universidade, enquanto os que vieram de fora tinham logo acesso ao ensino superior.
Pede-se igualdade, também acho que deve haver igualdade. Mas cada um no seu país. Não venham da fora fazer as vossas revoluções aqui.
Estou no meu pais e sinto-me tudo menos em casa.
Dói-me o coração quando olho e vejo que só se lembram de Portugal para futebol como no Euro2004 em que aí todos se lembraram que eram portugueses e colocaram as bandeiras de Portugal em todas as janelas.
E já que falo de deporto, antes tínhamos portugueses bons hoje não lhes damos valor e temos de ir busca-los ao estrangeiro.
Tenho pena pelos meus filhos e netos que irão viver num mundo que eu não ajudei a construir, vão estudar para no fim não terem emprego, visto que está ocupado por um imigrante que “coitadinho” precisa de ajuda.
Irão morar em bairros (numa visão optimista) que em cada 10 pessoas, 3 são brancas e Portuguesas.
Em que já não existirá uma noção de família nem de amor, em que Deus não será mais que um conto de fadas, em que as palavras «honra» e «dignidade» farão rir qualquer um e que a homossexualidade será algo tão natural como o percurso que a água faz da nascente até ao oceano.
Em que o aborto é tão normal como termos que respirar para viver e as opiniões dos velhos, que antes eram tidas como sábias, serão alvo de chacota e chamadas de retrógradas.
Não me chamem retrógrado, nem antiquado.
Posso ter 84 anos, posso ser velho mas a minha mente mantém-se intacta. Não precisei de drogar-me, de fumar nem de embebedar-me para conquistar raparigas.
Não irei dizer “no meu tempo”, mas haviam valores a respeitar.
Hoje filhos matam pais, espancam as mulheres, violam-se raparigas, rouba-se tudo. Chamam a isto evolução? Prefiro então não evoluir.
Ao menos não verei os meus netos serem roubados, nem as minhas netas violadas ou a fazerem abortos.
Não me chamem conservador nem racista, não me chamem nada disso. É crime defender a minha opinião?
Apenas defendo a minha família, o meu país e o meu Deus. Não quero que o resto do mundo seja igual a mim. Quero é que o meu país seja igual a mim.
Um país onde eu me sinta em casa, em que não veja crianças portuguesas no meio da rua a pedir uma moeda para poderem comer, porque o resto da família está no desemprego, enquanto os senhores de África e de Leste vivem no luxo ocupando lugares que não lhes pertence.
Não quero ver os meus netos adquirirem costumes que não são deles porque está na moda sermos “todos irmãos”. Não somos todos irmãos ninguém repara isso?
Olho para gente nova que hoje se ergue a defender valores como os meus e isso dá-me uma réstia de esperança. Faz-me pensar que afinal nem tudo está perdido, existem pessoas que podem mudar o rumo da nossa história.
Não sou contra a evolução desde que esta não faça desaparecer valores essenciais.
Certamente irão olhar para estas minhas palavras e mais uma vez irão dizer que parei no tempo. Não me importo. Se isso proteger a minha família o meu país, assim seja.
Agora que caminho para o fim da minha vida ponho a mão na consciência e afirmo pela última vez antes de morrer: “Por favor dêem Portugal aos Portugueses”
Origem: Anonimo.
