terça-feira, março 14, 2006

É a esquerda moderna, estúpido!

por José Crespo de Carvalho

Este país continua, de facto, a ser um total fantoche ideológico. Trinta e tal anos após a revolução dos cravos e continuamos a apelidar de esquerda tudo o que é bom. A tese decorre da hipótese.
E a hipótese, obviamente com formulação errada (julgo eu, e talvez seja só mesmo um problema meu!?), é a de que se pode ser um liberal de esquerda. Pode? A hipótese emergiu em público e numa reunião de faculdade assaz concorrida. Para dizer que, afinal, havia algum liberalismo posicional no pensamento e atitudes de uma determinada malta perante uma determinada questão, malta tipicamente de esquerda, e que esse liberalismo até era a coisa boa que ofereciam àquela questão para a sua resolução. Confesso que, num primeiro momento, fiquei meio estrugido.

Num segundo momento, e já refeito do choque, pus-me a pensar: é fantástico como, em Portugal, só a esquerda pode ter opiniões e posições valiosas e sérias. Quando, por algum motivo, se usa o liberalismo (ou ideias liberais) para a resolução de um problema, e para não lhe chamar de direita (porque da direita só vêm coisas más e nunca opiniões valiosas e sérias!) então chama-se-lhe liberalismo de esquerda.

A moda e o fanatismo da esquerda chegaram a tal ponto que os seus personagens usam e abusam de ideias de direita para as fazerem passar por esquerda. Pior que isto é dizerem-se convictamente de esquerda, apresentando-se como tal no seio do meio académico onde, putativamente, não há política, sendo as suas posições apolíticas e configurando, apenas, meras soluções para os problemas. Sim, porque política é aquilo que se escreve nos blogs; soluções, que não passam pelos blogs, nada têm a ver com política!

Este país continua, de facto, a ser um total fantoche ideológico. Trinta e tal anos após a revolução dos cravos e continuamos a apelidar de esquerda tudo o que é bom. E quando procuramos soluções para os problemas, socorremo-nos de teses liberais para as apresentar como de esquerda liberal ou, ridiculamente, moderna. Isto só em Portugal!

Ser de esquerda implica usar o Estado e os seus poderes para configurar um modelo social conveniente para o país. O primeiro liberal de esquerda, que aposte num Estado pequeno e de direito, na liberdade individual e nos mecanismos de mercado está, portanto, para nascer! O problema é que o Estado parece ser, neste momento, grande demais e não há soluções para o país que passem por ele. E, por isso, temos que recorrer ao mercado e às ideias de mercado para dar ao Estado o dinheiro que lhe falta por via do «seu Orçamento». Isto é, em todo o lado do mundo, um engodo. Em Portugal chama-se esquerda liberal ou moderna!

Para quem venha de fora, e tenha a surpresa de aterrar numa destas reuniões, convém explicar, agora, que os novos modelos de esquerda preconizados pelas universidades para si próprias, nos dias que correm, enfatizam o mérito, o valor individual, a competitividade, o empreendedorismo interno, a avaliação e, imagine-se até, a legitimidade das receitas próprias por recurso ao tão famigerado mercado e por fora do Orçamento de Estado.

As universidades são, portanto, o fantástico mundo onde se forjam e desenvolvem os grandes pensamentos da esquerda liberal! Vergonha!? Nem pensar. Continuam a ser de esquerda, pois então. E eu, que sou e sempre fui de uma minoria de direita, apenas mereço pagar o preço e transportar o rótulo de liberal de direita numa sociedade, pós-Estado Novo, de esquerda democrática. Está visto que não soube, e continuo sem saber, enroupar os meus argumentos em retóricas pífias similares às que descrevo.

Imagine-se agora o leitor participar numa magnífica reunião, em que a maioria dos personagens se diz de esquerda, e a ver serem usados os argumentos da direita liberal, clássica, vestidos como de esquerda e por pessoas de esquerda. O paradoxo funciona em todo o lado e, desde que Blair, no Reino Unido, foi eleito à esquerda para governar à direita, a moda pegou. Lá como cá, ainda por cima cá onde a direita continua a ter, infelizmente, conotações fascizantes, a esquerda será sempre muito maior que a direita. Sobretudo, e cada vez mais, a esquerda liberal. É que é isto, para quem não tenha entendido, que configura a esquerda moderna, estúpido!